Skip to content

Está a viver no piloto automático? Como sair da rotina e voltar a olhar para o que realmente importa.

As férias de verão já parecem distantes. Os dias de descanso, que souberam tão bem, parecem agora ter sido poucos diante da rotina acelerada que voltou a instalar-se.

As crianças regressaram à escola, o trabalho retomou o ritmo habitual e, com ele, as cobranças, os prazos e a pressão para apresentar resultados antes do final do ano. Por vezes, a sensação é a de estarmos numa correria tão grande que mal temos tempo para perceber o que estamos realmente a fazer ou como nos sentimos no meio de tudo isso.

Talvez tenha prometido a si mesma que, após as férias, faria diferente. Que não voltaria a uma rotina tão preenchida, sem tempo para o que realmente importa, com a sensação de estar apenas a cumprir obrigações. Que conseguiria cuidar mais de si, respeitar os seus limites e encontrar um equilíbrio maior entre as diferentes áreas da sua vida.

Mas, sem dar por isso, é fácil regressar aos mesmos hábitos. Quando as exigências se acumulam, voltamos a fazer o que já conhecemos, respondemos ao que é urgente e deixamos para depois aquilo de que também precisamos. E, assim, quase sem perceber, entramos novamente no piloto automático.

O problema não está em ter uma rotina ou responsabilidades. Está em passar tanto tempo somente a responder ao que a vida exige que deixamos de ter espaço para perceber como queremos vivê-la.

Quando não paramos para escutar as nossas necessidades, reconhecer os nossos limites e perceber como estamos a responder às exigências do dia a dia, corremos o risco de passar os dias a cumprir tarefas, sem espaço para questionar se a forma como estamos a viver ainda faz sentido para nós.

Porque é tão difícil sair do piloto automático?

Sair do piloto automático exige mais do que tentar organizar melhor a agenda ou esforçar-se para fazer tudo de outra maneira. Exige parar, ainda que por momentos, para refletir sobre o que estamos a fazer, porque o fazemos e o que gostaríamos de mudar.

Muitas vezes, repetimos padrões que aprendemos ao longo da vida sem nos apercebermos de que o fazemos. São ideias, crenças e formas de agir que fomos construindo a partir das nossas experiências, da educação que recebemos, das expectativas familiares e das referências que tivemos enquanto crescíamos.

Talvez tenhamos aprendido que ser uma boa mãe significa estar sempre disponível. Que ser uma boa profissional implica dar sempre mais um pouco. Que dizer “não” é desiludir os outros ou que descansar só é possível depois de tudo estar feito.

Essas aprendizagens podem ter sido importantes em determinados momentos da nossa vida. Podem ter-nos ajudado a conquistar objetivos, a sentirmo-nos reconhecidas ou a encontrar segurança. Mas aquilo que nos ajudou a chegar até aqui nem sempre corresponde ao que precisamos para continuar.

Por vezes, não precisamos de nos esforçar mais. Precisamos de perceber se continuamos a viver de acordo com regras que já não fazem sentido para nós.

O que é preciso mudar para viver de outra forma?

Na terapia podemos criar um espaço para reconhecer esses padrões, compreender de onde vêm e perceber de que forma continuam a influenciar as nossas escolhas.

Não se trata de rejeitar tudo o que aprendemos ou de considerar que as estratégias que desenvolvemos no passado estavam erradas. Trata-se de compreender o que nos trouxe até aqui e de avaliar, com maior consciência, o que queremos continuar a levar connosco.

Para algumas pessoas, esse processo significa aprender a flexibilizar as próprias expectativas e aceitar que nem tudo precisa de ser perfeito. Para outras, pode passar por estabelecer limites, tolerar a possibilidade de desagradar a alguém ou compreender que não precisam de estar disponíveis a toda a hora.

Há também quem precise de aprender a reconhecer as próprias necessidades, a pedir ajuda ou a permitir-se descansar sem sentir culpa.

Cada percurso é diferente. Aquilo que uma pessoa precisa de rever não será necessariamente o mesmo que outra precisa de aprender.

Construir uma vida com mais sentido começa por olhar para si. O caminho depende da história de vida de cada pessoa, do contexto em que está inserida, das responsabilidades que assume e dos valores que orientam as suas escolhas.

O que podemos fazer é começar por olhar para nós com mais atenção e curiosidade. Perguntar-nos o que nos está a exigir tanto, quais são as expectativas que colocamos sobre nós próprias e o que temos deixado para trás enquanto tentamos dar resposta a tudo.

Nem sempre será possível mudar a rotina de um dia para o outro. E, por vezes, as mudanças mais importantes começam precisamente por reconhecer aquilo que não está bem e compreender o que precisa de ser diferente.

No processo terapêutico compreendemos as dificuldades e descobrimos novas formas de responder aos desafios da vida. Isso porque sair desse piloto automático significa, pouco a pouco, recuperar a possibilidade de fazer escolhas mais conscientes e construir uma vida que esteja mais alinhada com aquilo que realmente importa para si.

 

Raphaela Lucena

Psicóloga Clínica

 

Back To Top